Pular para o conteúdo

Dr. Waldemir Miranda, o caiçarense do século XX (parte 1)

Waldemir de Soares Miranda nasceu em Caiçara em 24 de abril de 1903, filho de Antonio Florentino da Costa Miranda (“Tota Miranda”) e de Enedina Soares de Miranda. Ele, pecuarista e comerciante de algodão, foi o primeiro prefeito de Caiçara e depois um grande empreendedor em Guarabira; ela, uma mulher envolvida com os negócios, uma das primeiras empresárias da Paraíba.

Antes de Waldemir nasceram os irmãos Abdon e Dustan Miranda. Abdon sucedeu o pai nos negócios, além de também ter sido advogado e adepto do teatro e da poesia. Dustan seguiu o caminho do direito e da política, chegou a ser prefeito de Caiçara por duas vezes e foi suplente de Senador, porém, se destacou como advogado e promotor.

A família partiu de Caiçara para Guarabira em 1915, depois Waldemir estudou em João Pessoa.

Formado em medicina em 1926 no Rio de Janeiro, sua história médica teve início no estado do Espírito Santo. Depois fez mestrado em Dermatologia em Paris (França) e ao retornar passou a residir em Recife (PE). Seu primeiro trabalho foi como 1º inspetor regional de ensino de Pernambuco, emprego conseguido através de um concorrido concurso. Em 1932 passou a ser professor universitário.

Instalou sua primeira clínica em Recife em 1934. Foi o 1º médico pernambucano a conseguir o diploma de Medicina Tropical, obtido no Instituto de Medicina de Hamburgo, na Alemanha, em 1937.

Em 1940 fundou o Instituto de Radioterapia Waldemir Miranda, o primeiro do gênero em todo o Norte-Nordeste. Outro marco na sua vida foi a criação da Casa de Saúde São Marcos, em 1946. Foi também um marco para o surgimento do Polo Médico do Recife. O caiçarense tornou-se um dos mais renomados dermatologistas do Nordeste. Tanto o instituto quanto o hospital são até hoje referências regionais.

Apaixonado por literatura, escreveu para o jornal “Pirilampo” de Guarabira na juventude. Já em Recife, criou a revista Arquivos Dermatológicos de Pernambuco. Desenvolveu teses importantes na área médica como “Dermatomicoses observadas em Pernambuco” (1932); “A Bouba no Nordeste Brasileiro” (1935); “Um Novo Esporotricado e Suas Reações Alérgicas” (1936); “Alguns Aspectos Farmacológicos da Jotopha Curcas(Pinhão de Pupa)” (1938); “Conceito Moderno das Blastomycoses”.

Também publicou os seguintes livros: “Palavras de Médico”(1950); “Vida Médica em Pernambuco” (1974), “O Domínio do Sentimento Patriótico na Formação Espiritual do Indivíduo”; “Datas Históricas”; “Notas de uma Viagem Médica – Impressões Médicas da Europa” e “Minha Caiçara”(1998), este último trata-se do discurso proferido na inauguração do Centro Cultural da sua cidade natal que, publicado, tornou-se sua última obra.

Em 1950, liderou o movimento que resultou na fundação da Faculdade de Ciências Médicas do Recife, da qual passou a ser o 1º diretor, permanecendo no cargo até 1956. Em 1976 ingressou na Academia Pernambucana de Letras. Entre 1982 e 1992 o caiçarense presidiu a instituição. Ao deixar o cargo foi agraciado com título de Presidente de Honra.

São muitos os títulos acadêmicos e honorários de Waldemir Miranda. Entre tantas instituições das quais foi membro, além das já citadas, destacamos: Academia Pernambucana de Medicina, Academia Paraibana de Medicina, Instituto de História da Medicina, Instituto Internacional de Dermatologia Tropical, Sociedade Brasileira de Dermatologia, Sociedade de Medicina de Pernambuco, Sociedade Brasileira de Cancerologia, Sociedade Internacional de Medicina Tropical, Sociedade de Pediatria de Pernambuco, Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Academia Carioca de Letras, Academia Paraibana de Letras. Dada a sua atuação, foi também agraciado com várias medalhas e condecorações, como o título de Cidadão do Estado de Pernambuco.

Foi casado por três vezes. Com a primeira esposa, Zara da Cunha Rêgo, teve três filhos: Mírcio, Marcos e Waldemir. Posteriormente, do relacionamento com Jazete Magno, veio o filho Marcelo. Em terceiras núpcias, casou-se com Ione Miranda.

Atualmente, os descendentes têm Dr. Waldemir como exemplo e procuram dar continuidade ao trabalho que ele iniciou, preservando seus valores e mantendo viva a sua memória.

Dr. Waldemir nunca esqueceu de Caiçara. Deu o nome da cidade ao edifício que construiu na Praia de Boa Viagem em 1942, doou o busto do seu pai para a Praça Dois Antonios, em 1975.

Nos anos 1990 passou a voltar-se mais para sua terra natal e deixou aqui um legado de valor inestimável. Algumas das suas doações e realizações foram:

  •  Instrumentos para a banda de música;
  •  Distribuição de mudas de girassóis e super acelora para os agricultores;
  •  Equipamentos para Rádio Comunitária;
  •  Sistema de som para a Igreja Matriz;
  •  Gabinete odontológico;
  •  Parques para escolas particulares;
  •  Centro Cultural “Enedina Soares de Miranda”;
  •  Esperança Caiçara Hotel;
  •  Doação de acervo para biblioteca comunitária do Grupo Atitude.

A maior parte dos trabalhos dele em Caiçara tinha a frente a Dra. Lígia Miranda, sua sobrinha, e o esposo dela, Dr. Cleidson Jesus.

Em retribuição, a cidade lhe concedeu a Medalha do Mérito Prefeito Antônio Miranda, o título de “Caiçarense do Século XX” (proposição do vereador Jailson Vieira) e foi edificada uma praça que leva seu nome, inaugurada em seu centenário, em 2003.

No seu centenário também foi lançada a sua biografia “Waldemir Miranda, um Cidadão do Nordeste”, do jornalista pernambucano Carlos Cavalcante. Outra obra biográfica foi “Três Médicos Escritores, Três Personalidades da Sobrames” (L.A. Fernandes Soares), lançada em 2014.

O Dr. Waldemir consultou até 2003, ano do seu centenário, sendo considerado o médico mais antigo ainda em atividade no país.

Dr. Waldemir Miranda faleceu em 01 de novembro de 2009, aos 106 anos de idade.

Em 2013, para celebrar os 110 anos do seu nascimento, foi realizado pelo Grupo Atitude, com apoio da prefeitura de Caiçara, um evento em sua homenagem e lançada uma exposição permanente que conta um pouco da história dele através de banners que permanecem no Centro Cultural Enedina Soares (“Fundação”).

* CITAÇÕES:

“Caiçara e o Hospital São Marcos me acenam à vida, como se a idade não importasse. Vida para servir. Vida para amar. Vida para recordar”.

– O SEGREDO DA LONGEVIDADE

“Eu não como carne vermelha, só branca

Nunca fui de noitadas, sempre fui comedido

Sempre usei de processos de defesa, como vacinas

Sempre fiz caminhadas diariamente na praia

Nunca fiz da vida uma escola de prazeres, mas de amor à vida

Nunca fui contra os prazeres da vida, mas do modo de fazê-los e vivê-los

Nunca fui além dos limites permitidos pela minha saúde

Nunca fui de guardar ódios, rancores ou emoções negativas

Sempre amei muito a minha família, sempre procurei ficar perto de minha família

Sempre tratei todos com dignidade e respeito

Sempre tive a proteção de minha madrinha, Nossa Senhora do Rosário, padroeira de Caiçara” .

“O caminho da volta não é apenas mais fácil nem mais curto, é também mais impressionante, mais sensibilizante, mais romântico, porque repete a cada passo o que o coração não esqueceu”.

Waldemir Miranda foi um homem feliz,

Um médico famoso em todo país.

Lembrou de Caiçara e quando voltou

Construiu grandes obras, seu nome marcou.

  • Trecho da música “Caiçara, Minha Cidade”. (J. Ferreira, cantor e compositor caiçarense)

Texto: Jocelino Tomaz de Lima

Fontes: “Waldemir Miranda, um Cidadão do Nordeste” (Carlos Cavalcante), e entrevistas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *